Grupo CUF





ENTREVISTA COM JOSÉ MANUEL DE MELLO

Com aquele aguçado sentido do pragmatismo que sempre caracteriza os "fazedores", e com a tenacidade que deve ter herdado do seu avô Alfredo da Silva, levou uma vida a trabalhar para erguer, solidificar e impor um grupo económico.
De caminho, como tinha um olho mais aberto, uma atitude, e - sobretudo - um "tom" que o faziam evidenciar-se no quadro do capitalismo vigente antes de Abril de 74, preocupava-se: o imobilismo salazarista, primeiro, e a Primavera nunca cumprida de Marcelo, a seguir, levaram-no incansavelmente a ir dizendo de sua justiça. Falou mil vezes com Thomaz, discutiu outras tantas com Marcelo, acreditou na semente deixada pela Ala Liberal. Ficou desde aí amigo e "seguidor" de Sá Carneiro, mas foi perdendo as esperanças.
A revolução - que o apanha em pelo processo de internacionalização das suas empresas - deixa-o quase sem nada. José Manuel de Mello "vira a página" e recomeça a partir de onde pôde e como pôde. Valeu-lhe porventura não cultivar estados de alma, continuar a fumar dois maços de tabaco por dia e nunca ter precisado - até hoje - de tomar aspirinas.
Mas se esta entrevista é também o seu retrato, por detrás dele ergue-se um percurso, uma análise e um olhar - crítico - do que foram estes últimos vinte anos.

PÚBLICO - No dia 25 de Abril de 74, o que era o essencial do grupo Mello? O que era a CUF?
JOSÉ MANUEL DE MELLO - O 25 de Abril? Já foi há tanto tempo, já virei a página...

P - Tenho que começar pelo princípio...
R - Havia a Companhia União Fabril, propriamente dita. Havia uma "holding" chamada Sogefi, onde o meu irmão, as minhas duas irmãs e eu próprio nos encontrávamos para definir estratégias.
E através das nossas empresas - mais do que por interesses nesses sectores - estávamos nos produtos químicos, dos adubos a alguns produtos essenciais para outras indústrias; nos produtos alimentares, nos óleos e sabões. Existia ainda outro sector muito importante, o da navegação, personalizado pela Companhia Nacional de Navegação. Havia ainda a Lisnave e...

P - "Last but not least", o sector financeiro...
R - Sim, com o Banco Totta e a companhia de seguros Império. Bem... no essencial, em 74 era isso.

P. - Naquela data - e embora tenha já virado a página -, que projectos havia para o futuro? Crescer? Internacionalizar-se - como já havia indícios? Introduzir novidades?
R. - Estava em estudo uma profunda remodelação que visava justamente essa internacionalização, era o nosso objectivo principal.

P. - De resto, isso era um traço que o caracterizava como empresário, no panorama empresarial português da altura...
R. - Eu trabalhava afincadamente nisso. A ideia era procurar capitais estrangeiros que viessem ligar-se às nossas actividades...

P. - ... Em que posição? Paritária?
R. - ... Paritária ou minoritária. E nalguns casos até maioritária, para que a partir daí pudéssemos internacionalizar o grupo. O que pretendíamos eram posições que funcionassem essencialmente por trocas. Não se esqueça de que vivíamos numa economia fechada. Nessa altura - em que Portugal estava ainda ligado ao ultramar -, era abrindo a algum mercado que nós, em troca, pretendíamos obter acesso a mercados estrangeiros onde essas empresas estavam já instaladas.

P. - Referiu que se vivia numa economia fechada. Como é que, como cidadão mas sobretudo como empresário, olhava a decadência do regime?
R. - Com apreensão, evidentemente. Mas não virá ao caso falar das iniciativas que tomei nessa altura...

P. - ... Vem ao caso, vem. Quais foram?
R. - Era melhor a gente não falar nisso. Vinte anos ainda não me parece tempo suficiente para se proceder com rigor a análises históricas. Deixe passar alguns anos mais, é melhor serem os historiadores a falar... As análises feitas por mim não levam a nada... Esqueci o 25 de Abril. Foi um facto que sucedeu e já não há razão para pensar nele...

P. - ... Não há?
R. - Não. O melhor é pensar no futuro.

P. - Seja. Mas, antes disso, tenho de voltar um pouco atrás: tinha contactos com os governantes ou com a classe política da altura?
R. - Tinha, tinha.

P. - Manifestava-lhes a sua apreensão pelo andamento das coisas?
R. - Fazia-o sempre que isso me era possível. Com Marcelo Caetano tive horas e horas de discussão. Falei muito com o próprio almirante Américo Thomaz e com outros políticos da altura. Disse-lhes sempre a minha preocupação de que, a não haver qualquer evolução, um dia as coisas acabariam mal. Nunca imaginei é que acabassem tão mal...

P. - Conheceu Francisco Sá Carneiro no tempo da Ala Liberal? Também falava com ele sobre o país?
R. - Conheci e data dessa época o meu respeito por ele. Falámos algumas vezes. E se eu não estava na primeira fila do parlamento com eles, a verdade é que me identificava com os objectivos que pretendiam prosseguir. Encetámos aí uma amizade que durou até à data da sua morte.

P. - O que o movia era essencialmente uma preocupação centrada exclusivamente em Portugal continental, ou na questão africana, ou nunca dissociava uma coisa da outra?
R. - Na questão ultramarina, a descolonização parecia-me inevitável! De uma forma ou de outra, iniciara-se já. Portugal não podia viver isolado desse facto. Mas para além de ter preferido, na questão do ultramar, que tivesse ocorrido uma outra evolução - e um outro desfecho -, o problema para mim, como empresário, colocava-se num contexto mais global: a internacionalização que eu visava era independente do ultramar. 

P. - Por ter tido a consciência de que o ultramar estava de qualquer forma perdido?
R. - Pensava que a nossa África, fosse como fosse, iria sofrer muitas convulsões. Por isso, virei-me muito mais para a Europa e até para os Estados Unidos, e América do Sul, do que para o ultramar. Mas sem nunca desprezar, como empresário, o que África podia representar.

P. - Que tipo de interlocutores é que Marcelo Caetano ou Américo Thomaz eram para as suas apreensões? Como reagiam?
R. - O professor Marcelo Caetano teve várias evoluções. Começou por ser "compreensivo" para a necessidade dessa evolução e por dar alguns sinais dela, mas quando necessitou de a pôr em prática não foi capaz. Porquê? Não me pergunte, ainda hoje não consigo uma explicação satisfatória. Talvez haja mais do que uma... A minha fé numa evolução liderada por ele foi desaparecendo progressivamente.

P. - Quando percebeu isso, teve a preocupação de pôr dinheiro no estrangeiro, por exemplo? Tinha bens ou dinheiro fora de Portugal?
R. - Eu? Nunca tive dinheiro no estrangeiro! Nunca tive, nunca pensei nisso...

P. - Foi um problema que nunca se lhe pôs?
R. - Não. [Parece espantadíssimo.] Nunca encarei a vida empresarial como uma forma de tirar dinheiro para pôr aqui ou ali, cá dentro ou lá fora: o dinheiro era sempre para fazer crescer as empresas, era para fazer desenvolvimento.

P. - Teve alguma informação de que iria ocorrer o 25 de Abril antes dessa data?
R. - Sentia-se qualquer coisa no ar, mas não mais do que isso. Lembro-me de que se falava nos "capitães" e sobretudo de que, a partir das Caldas da Rainha, se dizia que "seria um problema de dias ou de horas!"

P. - Entretanto saíra o livro escrito pelo general Spínola. Leu-o?
R. - Li, claro. O livro [sorri] até fora editado por uma casa ligada ao nosso grupo [a Arcádia], eu conhecia o seu teor talvez um bocadinho melhor de que a maioria das pessoas. Mas não fiquei muito impressionado, não lhe posso dizer que cheirasse a falso, mas... Tinha qualquer coisa de um rebuçado embrulhado num papel muito bonito, o que não é a mesma coisa que o sabor de um rebuçado sem papel...

P. - O que disse a si mesmo no dia 25 de Abril de 74?
R. - Tentei continuar a minha vida. Tinha uma reunião marcada para esse mesmo dia que pretendi manter, mas o meu interlocutor estava tão preocupado que não foi possível realizá-la. A partir daí, assisti ao desenrolar dos acontecimentos com muita preocupação, tentando algumas intervenções. Foi logo nessa altura que começou a haver problemas na Lisnave - de resto, já mesmo antes do 25 de Abril houvera alguns indícios e sintomas -, onde as coisas se manifestavam com um cariz simultaneamente muito estranho e muito peculiar. Daí que tenha conhecido o Vasco Gonçalves, que eu nem sequer sabia que existia...

P. - Mas conheceu-o antes de ele ser primeiro-ministro? Teve contactos com Vasco Gonçalves antes de ele ir para São Bento?

R. - Falei várias vezes com ele. Não, não era ainda primeiro-ministro, era só revolucionário. Falei com ele porque me diziam que se tratava de uma pessoa-chave... Encontrei-o mais de uma vez na Cova Moura. Até me lembro de um dia em que apareceu o Costa Martins na sala onde estávamos. Vinha com um grande saco, informou-nos de que continha muitas granadas, mas, logo a seguir, atirou-o sem mais nem menos para cima de um sofá...

P. - O que o levava a procurar os militares? Começar a salvar o "insalvável"?
R. - Tentava explicar-lhes que era necessário um pouco de bom senso que fosse, para que não se destruísse de uma penada revolucionária o que existia, que nem sequer era muito! Mas julgo que naquela altura eu próprio fui demasiado ingénuo, tive algumas ilusões, o que me fez ir várias vezes falar com os militares, apelar ao seu bom senso, etc. Só mais tarde percebi o envolvimento do Partido Comunista.

P. - Afectou-o o facto de ouvir as multidões, instigadas pelo PC ou pela extrema-esquerda, gritarem "abaixo os Mellos" ou "morram os Mellos". Como "ouvia" isso?
R. - Esse período foi o pior, claro. Quando se chegou aí, ao caos e ao excesso, era absolutamente inevitável que essas coisas ocorressem. Mas lá isso do "morre"... As multidões também podiam dar vivas ao Benfica e daí a um bocado, vivas fosse a quem fosse... É óbvio que foram meios de pressão de quem está nos bastidores, para impressionar o pagode... Por definição mais despolitizado e desprotegido. No entanto, acho que a minha estabilidade emocional nunca foi afectada por isso. E nem nesse momento precisei de tomar uma aspirina, que seria aliás a primeira que tomaria na vida!

P. - Nunca tomou uma aspirina?
R. - Não. Nunca me doeu a cabeça.

P. - Recomecemos: a revolução rebentou na Lisnave. Depois, o que se seguiu?
R. - O Banco Totta. Bem tentei resistir de todas as maneiras possíveis, e até conseguimos criar alguns grupos que pretendiam ser de pressão...

P. - Como por exemplo?
R. - Tentei liderar - e recordo isto hoje com um sorriso nos lábios... - um movimento, o MDES (Movimento Dinamizador Empresa-Sociedade), que pretendia apresentar todo um programa de evolução baseado nas regras da democracia - pacífica e não turbulenta - e que, simultaneamente, apontava algumas pistas económicas e empresariais...

P. - Quem estava consigo nessa empreitada?
R. - Havia muita gente envolvida... O próprio António Champalimaud, Manuel Ricardo Espírito Santo, alguns outros empresários. E economistas, como o Joaquim Aguiar, o Leonardo Ferraz de Carvalho, etc. Uma série de gente. [Sorri.]

P. - E assim como nasceu... morreu? O MDES morreu antes do 11 de Março?
R. - Desapareceu antes disso. Teve uma vida efémera. Acabou praticamente com a entrega de um documento ao Conselho da Revolução. Mas teve um episódio curioso, que foi a destruição da sede, ali perto da Avenida da República: as mesas e as cadeiras voaram pelas janelas, os papéis foram todos queimados, etc.

P. - As nacionalizações ocorrem a 11 de Março. Como fica a partir daí?
R. - Fico sem nada.

P. - Nada de nada?
R. - Nada de nada.

P. - Mas resta a Lisnave...
R. - Aí tinha uma participação pessoal - minha e dos meus irmãos - que representava qualquer coisa como 14 por cento. É com o apoio dos estrangeiros que me aguento à frente da Lisnave. O resto da posição accionista foi nacionalizada, visto que estava distribuída por outras empresas, nomeadamente pela "holding", que foi das primeiras a serem nacionalizadas.

P. - Então agora a pergunta tem mais razão de ser: o que disse a si próprio no dia seguinte? No dia 12 de Março, de manhã...
R. - Passei esse dia no aeroporto. Justamente, tinha combinado uma reunião do Conselho de Administração da Lisnave para o dia seguinte, salvo erro, em Paris. E, até ao fim, fiquei com a esperança de poder sair de Lisboa, para ir presidir a esse Conselho. Como nada me pesava na consciência, fui ficando à espera, convencido de que iria, até tive lugar marcado num avião holandês que vinha da América do Sul... [Sorri.] Mais uma vez, não me deixaram sair...

P. - ... Quem?
R. - Tudo aquilo teve aspectos ridículos... Eu estava rodeado de alguns 20 ou 30 fuzileiros ou pára-quedistas com cinturões cheios de balas... Fiquei ali sentado, no aeroporto, fui bebendo a minha cerveja, comendo a minha "sandocha". E como havia um criado de mesa que tinha sido meu colega na Escola Pública de Cascais, ele vinha-me dando informações. Lembra-se com certeza de que naquela altura, na rádio, se conseguia ouvir as comunicações militares e portanto era fácil seguir-se todas as ordens dadas. A dada altura, ouço um capitão - o que comandava as forças de ocupação do aeroporto - perguntar ao Costa Gomes se devia prender-me, se devia deixar-me embarcar ou se me mandava embora do aeroporto. Lembro-me de que o Costa Gomes hesitou um bocadinho e disse: "Mandem-no para casa mas não o deixem sair." Foi assim que vivi o dia 11 de Março...

P. - Mas nunca chegou a ser preso, como outros empresários?
R. - Não, fui dos poucos capitalistas que nunca foi preso. Também ainda hoje não encontro uma explicação para isso. E a partir do tal dia 12 de Março dediquei-me à Lisnave, de manhã à noite.

P. - Mas entretanto foi viver para o estrangeiro?
R. - Não. Vivi muito pouco tempo no estrangeiro. Estive apenas alguns - poucos - meses sem vir a Portugal, porque o meu nome estava incluído na tal lista dos malfeitores que deveriam ser presos sem ser julgados... Parece-me que me acusavam de ser passador de droga, ou qualquer coisa no género.

P. - Nunca lhe ocorreu ir-se embora, desistir de Portugal, recomeçar longe daqui?
R. - Não.

P. - Porquê?
R. - Não sei, nunca pensei nisso. Não sei desistir, talvez seja assim, talvez porque sou português.

P. - Os portugueses não desistem?
R. - Desistem até com muita facilidade! Mas quando digo que sou português é no sentido de querer voltar. Além disso, as coisas são como o tempo: não há mal que sempre dure nem bem que não se acabe!

P. - Parece uma filosofia de vida, mas é capaz de afinal ser apenas pragmatismo em estado quimicamente puro... Esperou então que, depois da maré alta, viesse a maré baixa...
R. - Exacto. O caracol também se mete dentro da casca, deixa passar a borrasca, e depois põe a cabeça de fora e lá continua. Pareceu-me sempre inevitável que um dia se voltasse ao bom senso, estávamos geograficamente na Europa... enfim.

P. - Mas, justamente, nunca fez como o caracol: entretém-se com a Lisnave, mas, à medida que a situação e a atmosfera se tornam mais "normais", vai tentando outras coisas...
R. - Sim, sim. Mal houve uma certa normalidade, criei o MDM, com o Morgan e o Deutsche Bank, e fui tomando outras iniciativas. Fui sobrevivendo. Tinha também criado algumas empresas lá fora, de carácter comercial. Estive na Nigéria, onde lancei algumas empresas que por lá ficaram, porque depois as vendi. Não era fácil trabalhar na Nigéria...

P. - E no Brasil, para onde foram tantos portugueses?
R. - Estive também no Brasil. Não como residente, mas, uma vez mais, tentando tomar algumas iniciativas. Mas prefiro países com a democracia estabilizada e que funcionem com um determinado enquadramento jurídico. O Brasil sempre me deixou uma impressão de instabilidade com a qual nem sei viver nem gosto de trabalhar.

P. - Tinha a noção de que o nosso tecido produtivo fora totalmente destruído ou considerava que...
R. - Foi quase totalmente destruído. Mas como antes da revolução vivíamos num país fechado, numa economia fechada, virados essencialmente para as obras no ultramar, o que aconteceu foi que, com a perda de África, por um lado, e os desmandos da revolução e a voragem contra o capital, por outro, juntaram-se alguns factores explosivos. Mas infelizmente houve muita gente que aderiu... Isto para lhe dizer que as minhas preocupações como empresário não datam da revolução: antes de 74, conduzia outro tipo de lutas. A própria Lisnave é justamente o melhor reflexo - e a melhor resposta - do que era o meu entendimento das coisas nessa altura.

P. - Explique lá...
R. - Era uma questão de conceito: embora com sede em Portugal, era uma empresa que trabalhava para o mundo - como de resto ainda hoje. Os seus clientes são universais, nunca foram portugueses. E enquanto estive à frente do Banco Totta o que procurei foi exactamente expandi-lo. Daí que esteja em Londres, daí que estivesse em Paris, daí que já estivesse preparado para ir para Macau - parecia-me inevitável que se devia estar na China. Tentei também a América do Sul, o Brasil, os próprios Estados Unidos, onde abrimos um escritório de representação. Não sei se fui o primeiro, se o segundo ou o terceiro a jogar e apostar na internacionalização, mas o que não queria - embora sem abandonar a ideia de África, onde também estava - era ficar exclusivamente dependente das trocas com o nosso ultramar.

P. - A Lisnave passou péssimos bocados, apesar de toda essa estratégia. E, apesar da sua tenacidade e do seu pragmatismo, a que se deve o facto de a empresa ter conseguido singrar em tão adversas condições?
R. - Foi de facto uma experiência curiosa: a revolução foi o espelho do que lá se passava, mas a Lisnave foi igualmente o espelho da revolução... Aguentou-se devido ao vector externo que era o mercado, mas também porque havia - e há - um núcleo forte de colaboradores que nunca desistiram. Voltamos sempre ao mesmo... Havia um espírito de equipa...

P. - ... Liderado por quem? Por si?
R. - Por mim e em pirâmide. Sempre acreditei nas virtudes da pirâmide com um em cima e depois alargando-se para baixo... [Ri.] Havia um espírito de empresa, e sobretudo de vontade. Isso explica que não se tenha ido ao fundo.

P. - Entretanto a democracia começa a estabilizar-se, vota-se a Constituição e, a pouco e pouco, começa a produzir-se legislação que vai no sentido daquilo que defendia...
R. - Sim. Foi, por exemplo, devido à legislação que passou a permitir sociedades financeiras particulares que criei o MDM, segundo o mesmo conceito e o mesmo esquema: fui buscar duas instituições - o Morgan e o Deustch - que conhecia há muitos anos, desafiei-os a vir a Portugal. Foi uma aventura com dois aspectos: um negocial, outro de confiança pessoal. Se não fosse esse factor de confiança, julgo que nem um nem outro teriam vindo.

P. - Mário Soares é primeiro-ministro, Eanes Presidente da República...
R. - Tive vários contactos com o dr. Mário Soares e, antes disso, com o general Eanes. Parecia-me óbvio que, não tendo desistido, não podia viver isolado da realidade que era o país a cada momento. Procurei todos os contactos que me proporcionassem poder vender as minhas ideias e promover as minhas empresas. O Partido Comunista e tudo o que está à sua esquerda era insusceptível de ser considerado por um empresário. Do PS para a direita, julgo que vida de um empresário passava a ser possível... A partir da votação da primeira Constituição - contra a vontade de um sector do MFA -, as coisas começam a ordenar-se.

P. - Apercebeu-se de que havia finalmente interlocutores?
R. - Nunca houve animosidade. Claro que eu também nunca soube senão defender aquilo em que acredito: a iniciativa privada, a capacidade e a necessidade do empresário enquanto tal. Era isso que tentava demonstrar. Ou seja, que é muito mais o poder político que precisa de empresas sólidas e de empresários válidos do que os empresários precisam do poder. E considero, a este propósito, que esta relação tem sido e continua a ser permanentemente pervertida. Um político pode vingar num país de miséria, mas apenas à custa de uma ditadura. Se quer fazê-lo em democracia, necessita de um tecido económico forte.

P. - Mário Soares foi o primeiro que deu um sinal inequívoco aos empresários?
R. - Foi. Não me esqueço de que foi no seu tempo que se abriu a banca à iniciativa privada. Para além disso, deu uma série de sinais evidentes da evolução que se impunha.

P. - E Sá Carneiro?
R. - Disse-lhe há pouco que a nossa amizade nascera com a Ala Liberal. Quando, já depois de 74, esteve em Londres a convalescer, via-o muito. Julgo que nessa altura - com o Manuel Ricardo Espírito Santo - fui das poucas pessoas que ele via com frequência. E quando ganhou com a AD, foi uma aragem de esperança e uma mudança. Continuei a vê-lo regularmente, encontrávamo-nos ali na Rua D. João V, em sua casa, geralmente ao fim da tarde. Sá Carneiro foi o símbolo de que estávamos no bom caminho. Perturbou-me muito a sua morte.

P. - Considera que a CIP foi obrigada, "malgré elle-même", a substituir o vazio provocado por não haver nenhum partido político à direita? Visto que o próprio CDS se intitulava de "centro"?
R. - Julgo, em primeiro lugar, que a CIP tem tido um papel de defesa daqueles princípios que permitem a existência de empresas e de empresariado. Não se tem desviado desse papel e, nesse sentido, tem sido um farol. Talvez a tenham querido transformar num partido... Isso é outra coisa! Tem tomado posições fortes e frontais: esteve contra - e bem - no caso do não pagamento das indemnizações.

P. - Falemos disso agora.
R. - Das indemnizações? Se quer que lhe diga, é dos maiores erros que o país fez! Todos os problemas que hoje existem com as nacionalizações e a nacionalidade do capital reservado a nacionais ou a estrangeiros resultam disso.

P. - As condições são desiguais, é o eterno problema?
R. - É. Os empresários portugueses não estão em igualdade, não há capital em Portugal para fazer frente aos estrangeiros em condições de igualdade. Lembro-me de que falei com Sá Carneiro sobre isso, deu-me toda a razão. Mário Soares tinha nesta matéria uma posição semelhante à minha. Nem um nem outro o fizeram... Acredito que não dependesse só deles, não eram reis absolutos. E havia muita gente à roda deles com complexos de esquerda...

P. - Já agora: falou também com Cavaco Silva?
R. - Discuti com ele uma única vez. A partir daí, penso que se fez um pacto de silêncio entre nós no que toca a esta questão.

P. - Ditado por quem?
R. - Talvez por mim: não houve alterações nessa questão e, pior, julgo que não irá haver. Nem sinto que seja essa a vontade política nacional. Também acredito que há hoje algumas tentativas de reconhecer que se tratou de um erro, o próprio primeiro-ministro já falou de um pacto estratégico com os empresários, etc. Mas continuo convencido de que as indemnizações jamais serão pagas. De resto, o dinheiro não chega para nada, é quase impossível dá-lo aos empresários como compensação. Mas foi um erro gravíssimo.

P. - O pior dos erros, do seu ponto de vista?
R. - Foi, sem dúvida.

P. - Das indemnizações às privatizações vai um passo nesta nossa conversa.
R. - As privatizações em si são um bem. Considero mesmo que mais vale privatizar mal do que não o fazer de todo. Agora o que também digo é que o modo como foram feitas foi um erro crasso!

P. - Outro?
R. - A melhor prova é que a maior parte das boas empresas está na mão de estrangeiros! E julgo que o sector industrial, que mal começou a ser privatizado, também vai ser um insucesso...

P. - Porquê?
R. - Veja o caso dos cimentos. Porque é que foram privatizados mas voltaram para trás? Porque é que ocorreu o mesmo com a siderurgia? Fala-se agora da Quimigal. Eu pergunto: como vai ser com os milhões de contos de dívidas em relação a encargos passados com a Segurança Social? Com as reformas e as pré-reformas? Nem o que ficou da Quimigal - porque se vendeu uma parte para aqui, outra para ali - serve para criar um núcleo com alguma consistência...

P. - Como teria feito se dependesse de si?
R. - Teria sempre negociado - antes de privatizar - com um grupo português estável. E só privatizaria, aberto a estrangeiros e nacionais, após obter a garantia desse núcleo nacional estável. E por isso uma coisa é indissociável da outra: desse gesto surgiria uma óbvia compensação para as nacionalizações... Bati-me por isto até onde pude. Sem o menor sucesso, como vê.

P. - Uma crítica duríssima a Cavaco Silva?
R. - Devia governar mais à direita do que governa... Porque, justamente, se governasse com essa visão, teria forçado o pagamento das indemnizações como compensação das nacionalizações. No fundo, é um homem de centro-esquerda e governa como tal.

P. - Está também a pensar no arrasador peso do Estado na nossa economia?
R. - Claro que estou. O peso do sector público - quer empresarial, quer administrativo - deveria ter sido reduzido. Basta olhar para o Orçamento e para o peso que esse sector representa para ilustrar aquilo a que chamo uma política de centro-esquerda. Se eu estivesse no Parlamento, por exemplo, era isso que diria de manhã à noite!

P. - Como analisa hoje o nosso tecido industrial?
R. - Estamos no limiar - ou mesmo já lá dentro - de uma convulsão total do pensamento económico. Houve a civilização do Mediterrâneo, terá havido a do Atlântico, estamos já hoje na do Pacífico. E, perante isso, não só vivemos a crise da Europa - do desemprego, da segurança social falida, de uma Europa à procura de uma identidade, etc. , etc. - como também a de enfrentar um Pacífico com milhões de pessoas que não têm segurança social, que vão ter acesso a uma economia de mercado... Não há país nenhum na Europa que não esteja neste momento a pensar neste problema!

P. - E nós, nisso tudo?
R. - Não vejo que haja a imaginação necessária para não perder mais este comboio, e Deus sabe como Portugal é fértil em perder comboios! É-nos exigida uma revolução brutal de mentalidades para perceber o fenómeno que está aí à porta...

P. - A crise da Europa sobreposta à concorrência do Pacífico?
R. - Sim. A Europa acabou. Acabou o conceito estável e tradicional em que vivíamos e onde o desemprego é hoje o problema crucial. Em Portugal tem índices menores, menos preocupantes. Está mais ou menos escondido, mas a crise está cá. Mas, justamente, vamos nós saber pegar neste nosso atraso - que significa uma maior flexibilidade - e transformá-lo, com inteligência, num potencial para qualquer iniciativa que marque a diferença? O problema põe-se ao Governo, aos sindicatos, aos empresários... A frente tem de ser comum, e em vez de luta tem de haver colaboração. Estamos todos no mesmo barco.

P. - E no entanto... não foi possível assinar este ano o Acordo de Concertação Social...
R. - Ah, mas aí dou total razão ao Cavaco! Foi uma questão exclusivamente política...

P. - Dê-me um exemplo, como empresário, de onde esteja a pôr em prática essa "imaginação" ou essa "revolução de mentalidades", que diz serem indispensáveis?
R. - Agora em Portugal fala-se muito nas "grandes empresas", mas o que elas são é "gordas". Há que descobrir soluções de dinamização. Dou-lhe o caso da Império, de que voltei a ser accionista há um ano: não se calcula o que tem sido a revolução dentro da empresa, no sentido de aumentar a produtividade sem despedir ninguém. Tentamos procurar novas actividades para empregar as pessoas que estavam sub-empregadas. Claro que este esforço nem se publicita nem se põe no jornal, mas tem sido constante e permanente. Na Lisnave, por exemplo, com a ida para Setúbal, pretende-se reduzir o numero de trabalhadores, porque não é possível manter os que existem hoje - grande parte deles foram admitidos revolucionariamente de braço no ar! Mas o que se pretende, simultaneamente, é criar um núcleo sólido dentro da empresa, e depois outras empresas à roda. Para isso, a Lisnave irá fazer o melhor do seu esforço no sentido da criação dessas mesmas empresas, entregá-las aos empregados para que eles as vivam.

P. - Ou seja?
R. - Ou seja, a Lisnave irá utilizar essas empresas na medida das suas possibilidades, dando-lhes uma garantia de que, pelo menos, uma parte do seu trabalho será feito para ela, Lisnave.
Isto vai permitir um renascer para criar mais emprego. Infelizmente, tenho gente a mais. A minha maior preocupação é explicar que vou ter de reduzir o pessoal para manter emprego, porque sem emprego não há nada para os que ficam. Tenho, julgo eu, um passado empresarial onde sempre criei postos de trabalho, sempre procurei criar emprego autêntico. É nisto tudo, e desta forma, que pensamos hoje.

P. - São esses os seus projectos?
R. - Sim, na essência. Tenho outros, mas o segredo é a alma do negócio...

P. - Será a do negócio, mas não a das entrevistas...
R. - ... Fala-se aí na possível revenda da posição do Banesto no Banco Totta, e é evidente que sou concorrente a isso e que estou preparado para lá ir. Nada disto se passará imediatamente, pois há uma série de aspectos para esclarecer e por esclarecer - que aliás são públicos. Mas estou convencido de que se realizará. E dar-me-ia muito prazer.

P. - Para terminar: qual é a sua opinião sobre os novos grupos económicos surgidos depois do 25 de Abril e das nacionalizações?
R. - Como é natural, considero positivo tudo o que contribua para alargar o campo da iniciativa privada na economia portuguesa. Confio que saberão provar que têm essa iniciativa, mas também a persistência necessária para realizarem obra com consistência e solidez. Mas mais do que isto, o que todos temos de provar - mais novos e menos novos - é que compreendemos a mudança estratégica que aconteceu na economia portuguesa e nas europeias, com a sua abertura à concorrência mundial.

P. - Uma tarefa gigantesca?
R. - Um desafio gigantesco... Justamente porque assenta nessa mudança estratégica! É ela que obriga a conceber o "grupo económico" de um modo muito diferente do que eram as antigas ligações entre empresas que trabalhavam dentro das condições de um mercado nacional administrado - mesmo quando os seus produtos se destinavam à exportação. Penso que é justamente na compreensão desta mudança estratégica que se situa agora o critério de sucesso de qualquer empresário, esteja ele apenas numa só empresa ou integrado num grupo.

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